terça-feira, 26 de março de 2013

Pelas Pinturas de Leda Catunda - Introdução

Conhecer e se aprofundar na produção artística de artistas contemporâneos deve fazer parte dos objetivos gerais na área de Artes Visuais. Acredita-se que, desta forma, a criança tenha a possibilidade de ampliar seu repertório visual, vivenciar diferentes tipos de experiências, utilizar e investigar diversos tipos de materiais, além de aproximar a criança à poética de cada artista.

Artista contemporânea paulista pertencente a Geração 80, Leda Catunda (1961) tem a pintura como meio expressivo. A artista trabalha sobre suportes não convencionais como tecidos estampados, tule, veludos, lona, couro, fórmica, colchão, meias entre outros.

Paisagem com lago, 1984 acrílica sobre colchão




Onça pintada I, 1984 acrílica sobre cobertor




Xica, a gata/Jonas, o gato, 1984 acrílica sobre pelo artificial e luz




Jardim das vacas, 1988 acrílica sobre couro e tela



Em suas obras,  Leda Catunda se relaciona com diferentes materiais e suportes e, com as imagens e estampas já existentes neles. Com as imagens preexistentes, a artista pinta de forma a evidenciá-las ou encobri-las. Ao criar uma nova relação com essas imagens "prontas" (como define a artista), Leda Catunda muda a forma de olharmos para elas, denunciando imagens estereotipadas presentes em nosso cotidiano.

Vedação verde, 1983 acrílica sobre flanela


detalhe Vedação verde




Camisetas, 1989 acrílica sobre camisetas


Além desta pesquisa de suportes diferenciados, Leda Catunda também trabalha com relevos. Com motivos simples como luas, insetos, gotas, partes do corpo como a barriga, ela cria obras que oscilam entre a pintura e o objeto. Nestas obras, a artista desenvolve o conceito de "pintura mole", referindo-se a maciez existentes nestes relevos.


Capa, 1996 acrílica sobre tela e tecido



Besouro, 1994  acrílica sobre tela e couro



Bicho, 2000 acrílica sobre tela e espuma

Partindo destes aspectos, percebeu-se na poética de Leda Catunda um terrenos fértil e próximo à linguagem das crianças para se trabalhar conteúdos pertencentes às artes visuais. Foram realizadas diversas atividades com as crianças de 5/6 anos que serão, aos poucos, colocadas no blog.

Dentre os materiais selecionados para a realização dos trabalhos houve diversos tipos de tecidos como jeans, veludo, malha, tricolines estampados, voil, rendas, tules etc, espuma, imagens "prontas" de revista e jornais, tinta acrílica e papel camurça. Instigados pela poética da artista, este materiais foram pensados por oferecer uma experiência diferente e caminhos para que a criança possa entrar em contato com a produção artística contemporânea.


"(...) A originalidade de Leda está em seus materiais, em sua postura e em seu fazer. Ela pinta sobre suportes absolutamente não convencionais, muitas vezes aproveitando imagens neles preexistentes. (...) em vez de telas, há uma barraca de praia, o couro de poltronas desmontadas, toalhas de banho, edredons, rendões, cabeleiras postiças e até babadinhos de capa de liquidificador, transformados em telhados de casinhas, onde luzes se acendem. Um dos trabalhos mais provocativos é o das cabeleiras. Uma composição em negro, dramática, algo mórbido. Resulta de uma viagem da artista ao Japãp e reproduz - com absoluta liberdade - o clima claustrofóbico das multidões do metrô de Tóquio. A figuração de Leda, que confessa não saber desenhar uma pessoa, é assumidamente meio canhestra, a não ser quando ela aproveita para colorir desenhos já estampados. Deve-se ler essa pintura com olhos de 1987, entendendo a arte como uma ideia vigorosa e pessoal, cuja força conta mais que a execução e a 'cozinha' da técnica. (...)" 
Olívio Tavares Araújo

Paisagem da estrada, 1987 acrílica sobre tela, plástico e tecido


Ao final de todo o processo, tivemos a felicidade de receber uma visita da Leda Catunda à nossa escola. As crianças puderam fazer perguntas, entender sobre o seu processo artístico e, principalmente, conhecer a artista que, segundo elas, 'está viva'!




Leda se mostrou uma pessoa divertida, alegre e espontânea. Conversou com as crianças de maneira leve e solta, o que atraiu bastante atenção dos pequenos.



E, nesta visita, a artista deixou claro que o melhor da pintura é a sua liberdade.
                                                                                                                           


Para saber mais sobre a Geração 80, acesse o link sobre a artista Adriana Varejão




terça-feira, 12 de março de 2013

Ioiô no Varal

Construir brinquedos em aulas de artes é sempre uma boa opção. Além das crianças aprenderem a confeccionar algo lúdico, elas saem da aula brincando, o que é uma delícia.

Porém, gosto desta atividade pelo desafio que ela propõe.

Fizemos um ioiô. Uma bola de jornal amassado, envolta em fita crepe para manter sua forma e presa a um elástico. É simples e os pequenos adoram.

O verdadeiro desafio estava em pintá-los pendurados em um varal.


As crianças se animaram em pintar seus ioiôs de forma tão diferente. No entanto, suspensos no ar, qualquer toque do pincel os fazia balançar. Algumas crianças entenderam isso rapidamente e se empenharam em pintá-los de forma delicada. Para essas, o silêncio e a concentração imperaram durante a atividade.






Já outras crianças não conseguiram lidar com tal dificuldade. Iniciaram reclamando e passaram a segurar seus ioiôs, conferindo-lhes assim maior firmeza no pintar.


Independente da reação de cada um, o que vale nesta atividade é a experiência de uma nova forma de pintar, retirando as crianças da estabilidade de seus materiais e despertando-as à novas possibilidades de se fazer arte.


domingo, 3 de março de 2013

A escultura de Alberto Giacometti

Relato da aula proferida pela curadora e professora Regina Teixeira no curso de História da Arte, realizado nas Oficinas de Criatividade do Sesc Pompéia em 2012.

Alberto Giacometti (1901-1966)

Giacometti inicia sua pesquisa em artes retratando e esculpindo bustos de seu irmão Diego. Mais que um irmão, Diego era um parceiro de trabalho, ajudando-o e, em muitas vezes, orientando-o em suas pesquisas e decisões.

Cabeça de Diego, 1923

Como muitos artistas modernos, Giacometti se interessa pelas máscaras africanas e é influenciado pelo cubismo, fazendo surgir em seus trabalhos formas geométricas.

O Casal, 1927

Em 1927 faz sua primeira obra achatada, uma cabeça. Esse achatamento provém de sua busca pela representação da verdade. O artista quer retratar uma pessoa da forma como ele a vê. Para ele, quando se olha para um rosto, não se vê o volume total da cabeça.

Cabeça de Mulher, 1927

Por estes achatamentos e por suas próximas obras como "Mulher Colher" e "Cabeça que Olha", os surrealistas passam a se identificar com sua poética.

Mulher Colher, 1929

Após certo tempo no entanto, André Breton, principal fundador da vanguarda surrealista, se desentende com Giacometti. Breton achava inadmissível que o artista fixasse sua pesquisa em uma imagem figurativa, no caso, a forma humana. Entretanto, a figura humana era o grande tema de interesse de Giacometti.

Ainda integrante do movimento surrealista, Giacometti faz a obra "Bola Suspensa" em 1931, e este se torna um de seus trabalhos mais importantes.

Bola Suspensa, 1931

A bola não toca a base e não há nada de "sólido" como era comum nas esculturas tradicionais. Nesta obra, Giacometti também cria o espaço no qual a obra acontece. Por vezes, ela pode levar à uma leitura erótica pelo quase encontro entre as partes.

Com a morte de seu pai, em 1934, Giacometti faz um busto em sua homenagem. Neste momento, briga com André Breton novamente e retorna ao seu tema de interesse, a figura humana.

Em seus estudos, Giacometti começa a considerar e a introduzir dois novos aspectos em seus trabalhos: a distância em que ele se encontra em relação aos seus modelos e a passagem do tempo. Em relação ao espaço, Giacometti "levou ao limite a crise da escultura, como figura ou estátua, demonstrando a negatividade entre forma plástica e espaço" (Giulio Carlo Argan). Em relação ao tempo, Giacometti não buscaria uma expressão, uma psicologia dos modelos, mas algo mais eterno que, justamente, não sofresse a ação do tempo.

A partir destes novos olhares, Giacometti muda as dimensões em suas esculturas. Para o artista, o tamanho não tem a ver com a monumentalidade ou imponência de uma obra. Faz esculturas mínimas, chegando a 4,5 cm de altura.


Na pintura, é recorrente que o artista delimite o espaço no qual a imagem vai acontecer. Os olhos aparecem sempre rabiscados pois seria por eles que a verdade aconteceria. No entanto, eles nunca estão bons o suficiente para demonstrá-la.

Na obra "A Floresta" (1950) a própria  base é o espaço da escultura, é o que a separa do mundo. Giacometti diz serem as mulheres como árvores. Logo, faz uma paisagem e lhe dá o nome de floresta.

A floresta, 1950  
       
Já na obra "Quatro Mulheres" (1950) o artista busca representar o instante.

Quatro Mulheres, 1950

Algumas experiências de morte vividas pelo próprio artista também transparecem em sua obra. Observa-se bocas abertas, grandes narizes, entre outros aspectos. Há uma aflição, uma angústia pessoal que perpassa em sua poética.

A partir de 1960 começa a retratar bustos "universais", ou seja, sem terem nenhuma relação com o modelo.



Giacometti debastava suas obras de forma interminável e são estes debastes que geraram as ranhuras estéticas de suas esculturas. "Nas esculturas Giacometti vê apenas a possibilidade de uma única relação entre a forma e o espaço, a antítese: o espaço foge ao infinito, a figura se contrai, reduz-se a pouco mais que um fio, desapareceria se não a detivesse no limiar do nada um último e precário resíduo da matéria." (Giulio Carlo Argan)

Mulher em Pé, 1961

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Jogos de Autorretrato - Categorias

Há algum tempo atrás escrevi sobre Jogos de Autorretratos. Nesta postagem falarei sobre as categorias se retratos e autorretratos trabalhadas no jogo.

A exposição Olhar e Ser Visto no MASP reorganizou as obras do acervo da instituição, oferecendo novas possibilidades de leituras.

Foram elaboradas cinco categorias de retratos e autorretratos relacionadas ao momento histórico em que as obras foram feitas.

Abaixo estão as categorias presentes na exposição.


O Retrato da Pompa
Os primeiros retratos ditos autônomos – que não são mais parte da arquitetura – surgem no século XIII e ganham impulso com a invenção da portátil tela de pano como suporte (o mais antigo exemplo de pintura sobre tela é uma Madona de 1410). Os retratos deste grupo são ditos “de aparato”. A imagem construída pelo artista deve ser impressionante: o retratado é mostrado como alguém especial, subtraído quase aos acidentes do efêmero. Daí serem, de certo modo, atemporais. Não fosse pelas roupas que ajudam a configurar e situar os que as envergam, os retratados quase estariam fora de um lugar e época determinados. São exemplares, neste sentido, os retratos assinados por Goya, Van Dyck ou Hals: os retratados estão sobre fundo neutro (ou genérico, como na tela de Gainsborough) e se deixam ver em poses hieráticas, afirmativas, quer apareçam de corpo inteiro ou de meio corpo. São retratos de pessoas e, também, símbolos de alguma outra coisa, sobretudo do poder. Os primeiros retratos foram os da realeza, do alto clero e da aristocracia, donde serem naturalmente “de aparato” (no Renascimento, surgem os retratos das pessoas mais comuns ou, em todo caso, dos burgueses). Como toda pintura de gênero, o que primeiro se retrata aqui é o próprio código a que a obra pertence – no caso, a própria pompa, a ideia de pompa; o retratado é meio para pintar-se a pompa em si mesma. O retratado existe porque a pompa existe.





O Recurso à Cena
Os retratos deste grupo apresentam seus modelos junto a alguém mais, ou a alguma outra coisa, fazendo alguma coisa, representando alguma coisa: compõem, com as outras pessoas ou coisas representadas, uma cena que lhes empresta ou sugere uma qualidade específica. De algum modo, todo retrato compõe uma cena, em particular os retratos de aparato; aqui, porém, a cena é mais explícita e ampla e a narrativa que propõe é mais extensa, senão mais complexa. Várias das obras desse grupo relacionam-se àquelas exibidas entre os retratos da pompa, enquanto outras, em número não menor, remetem-se ao grupo dos retratos modernos, de que poderiam fazer parte com igual propriedade. Em certos casos, como nas obras de Nattier, a cena representada chega a compor uma alegoria, mas ela sempre será quase um teatro. É de 1310 a recomendação de Pietro d’Abano de que o retrato deveria expressar a aparência e a psicologia, ou a alma, do retratado – algo mais viável nos retratos desse grupo e do próximo do que naqueles “de aparato”. Daí não se deve concluir, porém, que a semelhança sempre tenha sido tudo, no retrato: antes da modernidade proposta pelo século XIX, conforme o princípio da dissimulatio (dissimulação), o realismo deveria submeter-se aos interesses contextuais da representação, razão pela qual, sobretudo nos retratos de pompa ou aparato, os eventuais defeitos físicos dos modelos eram diminuídos ou ocultados. Na contemporaneidade, o corpo humano em seu realismo mais cru, em suas falhas e sua decadência, será mostrado sem disfarces.






Eu Mesmo
Atração narcisista pela própria imagem; tentativa de sair de si mesmo para, enfim, ver-se melhor, ver-se de outro modo; a simples comodidade de ser o modelo mais disponível; no início de sua história, esforço do artista para que o vissem como aqueles que ele próprio retratava, isto é, como um membro das classes altas, das profissões liberais (intelectuais) e não das manuais, que dependiam do esforço físico: tudo isso se encontra na origem e na história do autorretrato. Rembrandt, com a retratação insistente de si mesmo, não raro impiedosa, foi um equivalente dos poetas que repetidamente mergulham em si para vislumbrar ao menos um pouco da natureza humana. Já Pancetti buscava ver não tanto e não só aquilo que de pessoal existia em si mesmo, como também o que de mais coletivo nele ecoava. E Max Beckmann atribui a seu próprio retrato uma dimensão que ultrapassa a alegoria, para tocar na metafísica. Em todos os casos, o espelho de que se serve o artista, por mais polido que seja, revela-se opaco ou tem um grau de refração que o torna inútil – porque reflete tanto o retratado quanto quem o mira. A refração, como se sabe, modifica a velocidade da luz, matéria da pintura, e dá do objeto uma imagem ligeiramente fora de eixo, distorcendo-o no ambiente, ao mesmo tempo em que o mostra muito tal qual é: na tela de Darcy Penteado, a refração parece ter atingido o auge.





Retratos Modernos
Aqui, à primeira vista, os retratos são das pessoas elas mesmas, mais do que de alguma coisa que esteja por trás delas, que representem e na qual se amparem. O que se representa são elas mesmas e não o eventual poder que tenham ou o objeto ou o ser que as definam. Mas, por maior que seja a verossimilhança, em muitas destas telas, ou todas, predomina uma sensação de estranheza: mesmo que se ofereçam nuamente ao olhar, por imóveis que estejam (e, talvez, por isso mesmo), tampouco aqui elas se revelam de todo, se expõem. Tanto quanto a pessoa, o que se vê é a persona, a máscara que os retratados usam para se deixarem ver (quando não para se verem). De certo modo, essa é uma qualidade da maioria dos retratos, senão de todos; no modo deste grupo, porém, esse tom é mais acentuado porque nenhum objeto de contexto ou símbolo sugerido vem em socorro do retratado – ou de quem o observa. As pessoas não são, porém, a única coisa que se retrata aqui. Cézanne pinta tanto sua mulher quanto a arte pré-renascentista e a nova arte (cada retrato seu, como vários de Picasso, é também um retrato da história da arte). E Van Gogh faz seu modelo, como o escolar, competir com o entorno (e praticamente perder para ele). Tanto quanto nos retratos de aparato, também nesses o fundo é quase sempre vago, neutro e indefinido. O sentido, no entanto, é diverso neste caso. Aqui, é como se o sentido da pessoa retratada fosse suficiente para encher o espaço definido pela tela, como se nada mais fosse preciso para apresentar e definir quem ela é. A semelhança entre o modelo e o representado fez o sucesso do retrato e também, no início, foi motivo de crítica, pelo menos entre os intelectuais. Vasari, iniciador da História da Arte como disciplina no século XVI, considerava o retrato um gênero menor, por ser uma reprodução direta da realidade (um ritrarre) e não a representação do real conforme um conceito orientador (o imitare), próprio da grande arte imaginativa. (Um escrito central de Leonardo da Vinci propôs que a arte é, sempre, uma coisa mental.)





Desconstrução
Com a arte moderna do final do século XIX, a figura – e, com ela, a identidade – vai-se desfazendo e substituindo por outra coisa. Picasso apresenta uma evidência exemplar desse modo, decompondo a cabeça do personagem numa multiplicidade de fragmentos cuja soma é maior que o todo. Flávio de Carvalho e Chemiakin adotam procedimentos diferentes, que convergem, no entanto, para o mesmo fim: o retratado desaparece em favor da retratação da própria arte, da estética do artista, para quem o retratado é apenas um pretexto, e nem de longe o mais importante. A representação do que está fora da arte chegou a seu fim.





Realizei este jogo com alunos do 3° Ano do Fundamental I e retirei a categoria Eu Mesmo, pois achei que seria um pouco complexo para as crianças diferenciarem esta categoria de qualquer outro autorretrato.

Veja também:
Jogos de Autorretrato
Catálogo Olhar e Ser Visto

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Leonilson Gigante com Flores

Leonilson Gigante com Flores é o nome de um dos livros da coleção Arte à Primeira Vista, Ed Paulinas.


Direcionado ao público infanto juvenil, o livro pretende aproximar os leitores ao universo poético do artista brasileiro Leonilson (1957 - 1993).

A obra de Leonilson inclui pinturas, desenhos, bordados, algumas esculturas e instalações. Para a crítica de arte Lisette Lagnado, o artista foi movido pela necessidade de registrar sua subjetividade. Em 1989, apresentou peças feitas com botões, pedras semipreciosas e bordados, introduzindo um novo e fundamental procedimento em seu trabalho: a costura.

Palavra e o texto também aparecem na obra do artista desde o início e se integram às imagens, transformando-se nos próprios desenhos ou pinturas. Se caracterizam por ser escrita livre, escolhidas pela musicalidade dos versos ou das palavras.

 "A obra do artista José Leonilson é repleta de índices taxonômicos: listas, números, coleções, símbolos, repetições. Seu legado constitui um grande arquivo, impregnado de memórias, classificações, vida e transposições. Esses arquivos de referências pessoais são compostos de materiais recolhidos do cotidiano, como tíquete de viagens, entradas de cinema, matérias de jornal e revista com informações pessoais, de amigos ou de sua obra, programações das exposições, fotos, contas, endereços, telefones, cartões, relatos de viagem, uma refinada escrita poética, esboços de trabalhos e demais particularidades.
A presença do caráter colecionista em sua personalidade e em seu trabalho se evidencia na coleção de brinquedos e no conjunto de signos recorrentes utilizados em toda a sua obra (ampulheta, símbolo do infinito, números, navio, escada, ponte, relógio, avião, farol, instrumentos musicais, átomo, vulcão, montanha, cadeira, bússola, torre, radar etc.). Delimitando todo esse trajeto, costurando todos os pontos, encontra-se a vida, o secreto, o particular, o romântico, que migrou de forma fluente e poética de seu cotidiano para sua produção artística.
Nesse processo de catalogação ou arquivamento do eu, o ‘’mundo’’ foi uma das metáforas mais utilizadas, assim como a geografia unida à topologia do corpo (mapas, globos, rios, caminhos, trajetos, artérias, vias, órgãos, cidades, desejos), que compõe uma espécie de cartografia do desejo. Dentro dessa investigação taxonômica do mundo, a palavra foi um dos agentes processuais mais legítimos e, por meio dela, foi composto um inventário regido pela identificação, observação e classificação." Bitu Cassundé e Ricardo Resende

O livro Leonilson Gigante com Flores, é constituído a partir desta integração entre texto e imagens.





Acompanhado do caderno-ateliê, o livro traz propostas de atividades a serem desenvolvidas pelas crianças.

Em 2010, realizei um trabalho com os alunos do 3° ano do Fundamental sobre o artista. Encontrei a riqueza na variedade de processos artísticos e conceitos que foram trabalhados como desenhos de observação, pinturas, relação entre imagens e palavras, costura, identidade.

Abaixo, alguns trabalhos feitos pelas crianças.






Mas foi inspirada nesta obra de Leonilson que criamos o trabalho mais bacana de todos. 


Ninguém, 1992   bordado sobre algodão


Depois de devidamente aproximados da obra do artista, propus às crianças que fizéssemos um travesseiro. Elas poderiam bordar seus nomes ou o desenho de observação que mais tivessem gostado. Neste momento, foi importante orientá-los a escolherem um desenho simples pois bordar era o verdadeiro desafio.
Primeiro eles bordaram o desenho. Depois, uniram três laterais do travesseiro, juntado a parte da frente com a parte de trás. Formou-se assim um "saquinho" no qual preenchemos com manta acrílica. Por fim, fechamos o travesseiro. E eles ficaram assim:








Ao dar relevo ao bordado, criou-se um objeto de arte. Diferente e contemporâneo.

Para saber muito mais....

sites

livros
Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. Leonilson. Ed CosacNaify
Leonilson: São tantas verdades. Lisette Lagnado. Ed DBA

Outros livros da coleção Arte à Primeira Vista no Blog
http://arteemprocessos.blogspot.com.br/2012/11/lygia-clark-linhas-vivas.html