O livro Rabiscos de Taro Gomi é surpreendente. Como o próprio site da editora Cosac Naify define, Rabiscos é "muito mais do que um caderno para colorir, é um convite à criação e à brincadeira."
Neste livro o ilustrador Taro Gomi inicia desenhos e sugere propostas a serem continuadas pelas crianças. Me chamou a atenção a qualidade das propostas. São instigadoras e inovadoras, propiciando assim desenhos que fogem do comum.
Nesta paisagem por exemplo, o autor propõem que o céu seja colorido. Porém, a cada paisagem o tempo muda, variando entre o céu azul como muitas nuvens, o pôr do sol, muita chuva, um lindo arco íris ou uma noite escura. Nestas páginas, as crianças são colocadas em outras situações de céu que fogem daquele sempre azul. Além disso, elas passam a perceber outras cores que compõem o céu como o laranja e o rosa que surgem no final do dia.
Por esta e muitas outras montanhas como as mostradas abaixo, as crianças são convidadas a desenharem animais, árvores, plantas, rios, lagos e tudo mais que poderia compor a paisagem.
Já aqui, a sugestão é desenhar o fundo do mar.
As crianças também podem desenhar o rosto de seus amigos,
seus corpos,
as estampas da camisetas,
ou mesmo os chapéus de cada personagem!
Também podem passear pelos meios de transportes e desenhar seus condutores.
Enfim, estes são alguns exemplos da riqueza presente neste livro. Com folhas bem durinhas e resistentes, pode-se também variar os materiais utilizados, partindo para pinturas e colagens.
Acredito que Rabiscos, além de ser um ótimo livro para as crianças se envolverem no tempo livre, pode vir a ser também um ótimo material para professores que buscam atividades diferentes. Infinitas são as possibilidades de Rabiscos.
É comum que relacionemos crianças à coisas coloridas. Em qualquer atividade direcionada à elas, estimula-se o colorido. E é fato, cores e crianças tem tudo a ver!
Elas gostam do verde, do azul, do vermelho, do amarelo, do rosa... Mas, em algum momento, é interessante também que elas possam se aproximar do preto e do branco.
Para desviar um pouco do habitual colorido, elaborei esta atividade para as crianças de 2 e 3 anos. Minha proposta era que elas fossem expostas ao preto e ao branco, explorando-os, sentindo-os em seus contrastes e misturando-os, descobrindo assim o cinza.
Entreguei para cada uma um papel metade branco metade preto, unindo as folhas com durex na parte de trás.
Ofereci tinta preta e branca e cotonetes para desenhar.
Não disse nada além das cores à serem trabalhadas na aula.
No início, algumas crianças só colocavam a tinta branca no papel branco e tinta preta no papel preto. Obtinham assim um desenho bastante organizado em suas cores! Aos poucos, fui propondo que elas usassem as duas cores nos dois papeis. E então, outras imagens foram aparecendo.
Outras crianças já se aventuravam pelo papel inteiro.
E outras ainda, mais minuciosas, descobriram as diversas tonalidades do cinza.
Enfim, este é um trabalho simples sobre cores, cheio de experiência e informação.
Estimular o desenho em seus diversos formatos é fundamental nas aulas de artes visuais. Nesta atividade procurei trabalhá-lo de forma simples, porém lúdica.
Cortei uma folha de papel sulfite A4 ao meio no sentido horizontal. Dobrei as extremidades da tira de papel levando-as ao meio, formando uma janelinha.
Neste formato, pequeno e lúdico pelo fato de abrir e fechar, instiguei meus alunos de 6 anos a desenharem uma paisagem.
Poderia ser a paisagem da janela de suas casas ou quartos, ou uma paisagem da cidade, que viam ao vir ou voltar da escola. Pelo pequeno tamanho do papel, os estimulei a pensar sobre os detalhes presentes nesta paisagem que nem sempre aparecem nos desenhos, como fios elétricos, postes, lixeiras, faixa de pedestres, bicicletas, varandas, portões, semáforos, entre outros.
Depois desta pequena conversa cheia de memórias, entreguei lápis 6b e lápis de cor.
É interessante observar como as crianças lidaram com todos os elementos na organização do desenho.
Nesta atividade buscou-se também ampliar o repertório gráfico de cada criança, que poderá vir a enriquecer desenhos posteriores.
As crianças se dedicaram a desenhar a paisagem com seus detalhes e também em decorar a janelinha por fora.
O resultado é um trabalhinho charmoso e com bons desenhos para serem olhados.
Desenvolver atividades de artes com crianças de forma à aproximá-las do universo poético da artista Lygia Clark me parece uma possibilidade rica em experiências.
Ao propor uma arte em que o espectador interage, manipula e modifica a obra, Lygia Clark abriu um diálogo entre arte e corpo, sendo também o corpo o espaço privilegiado para atividades com crianças.
O livro Lygia Clark Linhas Vivas faz parte da coleção Arte à Primeira Vista da Editora Paulinas.
Feito para os pequenos, apresenta textos e imagens adequados à eles.
O livro vem acompanhado de um caderno-ateliê com propostas de atividades. Há, inclusive, uma sugestão de montagem dos Bichos (1963).
Talvez este seja o único material educativo sobre a artista direcionado para crianças, e de ótima qualidade.
Ocorre no Itaú Cultural, em São Paulo, uma retrospectiva da obra de Lygia Clark, uma das mais importantes artista brasileira.
O início de seu trabalho é fortemente influenciado pelo construtivismo da década de 1930.
Ao assinar o Manifesto Neoconcreto, novas diretrizes formais apontam para sua obra.
As obras abaixo são feitas de madeiras cortadas, pintadas e encaixadas como em um quebra cabeça.
Aqui, os recortes saem do plano, caminhando em direção a tridimensionalidade.
O Neoconcretismo
define-se como tomada de posição com relação à arte concreta exacerbadamente
racionalista e é formado por artistas que pretendem continuar a trabalhar no
sentido da experimentação, do encontro de soluções próprias, integrando autor,
obra e fruidor.
Lygia rompeu com o espaço bidimensional do quadro, aboliu a moldura, e sua obra invadiu a terceira dimensão. Dentro da sua proposta, o espectador abandona a condição passiva diante da obra e passa a interagir com ela, estabelecendo uma relação de transferência e doação.
São inúmeras obras em que a experiência do espectador é constituinte do trabalho.
Os Bichos são criados por Lygia em1960. São obras constituídas por placas de metal polido unidas por dobradiças, que lhe permitem a articulação. As obras são inovadoras: encorajam a manipulação do espectador, que conjugada à dinâmica da própria peça, resulta em novas configurações.
Em 1963, Lygia Clark começa a realizar os Trepantes, formados por recortes espiralados em metal ou em borracha, como Obra-Mole (1964), que, pela maleabilidade, podem ser apoiados nos mais diferentes suportes ocasionais como troncos de madeira ou escada.
Em Luvas Sensoriais (1968) dá-se a redescoberta do tato por meio de bolas de diferentes tamanhos, pesos e texturas.
A instalação A Casa É o Corpo: Labirinto (1968) oferece uma vivência sensorial e simbólica, experimentada pelo visitante que penetra numa estrutura de 8 metros de comprimento, passando por ambientes denominados "penetração", "ovulação", "germinação" e "expulsão".
A partir de 1976, Lygia Clark dedica-se à prática terapêutica, usando Objetos Relacionais, que podem ser, por exemplo, sacos plásticos cheios de sementes, ar ou água; meias-calças contendo bolas; pedras e conchas. Na terapia, o paciente cria relações com os objetos, por meio de sua textura, peso, tamanho, temperatura, sonoridade ou movimento. Eles permitem-lhe reviver, em contexto regressivo, sensações registradas na memória do corpo, relativas a fases da vida anteriores à aquisição da linguagem.
Veja no teaser da exposição do Itaú Cultural estas obras, e muitas outras, sendo experimentadas e manipuladas.
Devido a exposição, foram gravados muitos videos interessantes sobre a obra de Lygia Clark. Selecionei então alguns para aprofundar um pouco na poética da artista.
No video abaixo, Felipe Scovino, um dos curadores da exposição, fala sobre a passagem da obra de Lygia Clark do plano bidimensional para o tridimensional, da importância dos Bichos para a arte nacional e mundial, e também sobre a participação do espectador na obra da artista.
Neste outro video, Felipe Scovino fala sobre o percurso artístico da artista.
E, neste próximo, passeia pelas obras presentes na exposição, conceituando-as e contextualizando-as.
Por fim, temos Alessandra Clark falando sobre a linha, um aspecto integrante da poética da artista que perdurou em sua obra.
Mais adiante, falarei sobre as possibilidades de trabalhos educativos a partir de sua obra.