Após as crianças assistirem a animação Príncipes e Princesas de Michel Ocelot, gosto de trabalhar com elas atividades que envolvam luz, sombras e silhuetas.
Há infinitas possibilidades de trabalho com esta temática que, inclusive, pode se tornar um pequeno projeto em artes visuais. Por ora penso em teatro de sombras, fotografias, capturas de sombras com desenho, atividades que envolvam o retroprojetor ou mesmo, animação.
Uma forma é trabalhar como Michel Ocelot, com recortes de silhuetas de papel.
Recortes de silhuetas de Michel Ocelot em papel preto para "Principes e Princesas", e em papel branco para "Os Três Inventores"
Entreguei às crianças papel preto e tesouras. Se elas forem muito pequenas (de 6 a 7 anos), procuro fazer com que elas desenhem com a tesoura mesmo, pois, se elas desenharem com lápis para depois recortar, o desenho se perde. Depois disso, cola-se em um papel vegetal, colorindo-o com canetinhas hidrocor.
Ao se colocar o trabalho contra a luz (pode ser no vidro de uma janela), tem-se esse resultado.
Trabalhos na janela
Uma outra forma de aproveitar mais a questão da luz e da sombra, aprendi com uma amiga professora.
Primeiro as crianças recortam as silhuetas em papel branco (o canson mesmo). Depois gruda-se os recortes com pedacinhos de fita crepe por baixo em outro papel canson branco. Com rolinhos, pinta-se todo o papel com as silhuetas grudadas com tinta preta. Ao final do processo portanto cria-se dois trabalhos, um com luz e o outro, com sombra.
Como muitos já devem conhecer, a obra de Michel Ocelot é incrível.
Em sua filmografia constam Os três inventores (1980), A Princesa Insensível (1983), Kirikou e a Feiticeira (1998), Príncipes e Princesas (2000), Kirikou e os Animais Selvagens (2005), Azur e Asmar (2006), Dragões e Princesas (2010), Os Contos da Noite (2011), entre outros dos quais ainda não tenho acesso.
Kirikou e a Feiticeira, 1998
Azur e Asmar, 2006
Príncipes e Princesas, 2000
Pela Mostra Sesc de Artes 2012, fui assistir Os Contos da Noite em 3D, no Cinesesc. Foi então que surgiu uma vontade de falar sobre ele, afinal, seus trabalhos são admiráveis.
Os Contos da Noite, 2011
Além do prazer puramente estético em assistir suas animações - seja pelas cores fortes, luminosas e constrastantes, seja pela riqueza ostensiva de detalhes, que nos fazem sempre pensar: "Meus Deus, que trabalhoso, que maravilhoso, que bom que isso existe!!" -, as histórias contadas merecem outro mérito.
Em geral, suas histórias provém de narrativas tradicionais de regiões ou comunidades e, o diretor, se mantém fiel a elas, respeitando suas origens. É um verdadeiro pesquisador de histórias.
Somando tudo, tem-se uma exuberância visual unida a lindas histórias.
Os Contos da Noite, 2011
Michel Ocelot nasceu na França em 1943 e aos 6 anos foi morar na Guiné. Segundo o diretor: "Minha feliz criação na Guiné alargou a minha mente. Estive em contato com cinco religiões diferentes. Até os 12 anos, durante a escola, eu era negro; durante as férias de verão, era branco de novo."
Ocelot também se inspira nos "griots", que são poetas e cantadores da cultura africana. "Eu adoro histórias, mas gosto de usá-las do meu jeito. Não adapto. Se existe um autor do conto, considero que está bem feito e não devo mexer nele. Eu como histórias antigas. Alimentado, fico mais forte e uso essa força como quero, até me esquecendo de onde ela veio."
Em 2009 o diretor foi homenageado tanto no Anima Mundi quanto na Mostra de Cinema Infantil, que ocorre em Florianópolis. Inclusive, as falas de Michel Ocelot expostas aqui foram retiradas de entrevistas realizadas pela produção desses eventos.
Seu primeiro filme foi Les 3 Inventeurs, 1980. Ocelot revelou que teve muita dificuldade pois, na época em que foi feito, não haviam escolas de animação. Tudo então foi feito com base na intuição. E vejam que resultado!
Em entrevista com a produção da Mostra de Cinema Infantil lhe foi perguntado: "Como podemos decifrar seu trabalho? Qual o seu objetivos com os filmes?"
Ocelot respondeu:
Me parece que tenho o poder de criar beleza e eu me utilizo disso. Se eu
puder trazer minha contribuição, por menor que seja, ao mundo… uma gotinha de
óleo que vire mancha… eu vou fazer. Tenho esse poder de trazer beleza e
proporcionar prazer; e esse é o meu prazer. Trabalho com pessoas que, assim
como eu, são apaixonadas por sua profissão e querem também oferecer algo às
pessoas. Por um lado quero proporcionar um momento mágico Não quero encantar
vocês não, mas por detrás desse encanto quero se possível trazer algo, uma
descontração frente às coisas da vida, uma capacidade de abrir vocês, de não
precisar ser tolerante. Não falemos de tolerância, trata-se apenas do prazer de
viver, do prazer de conhecer pessoas diferentes. Alguns dizem que meus filmes
são panfletos em prol da tolerância. Não é nada disso: eu faço apologia do
prazer. E essas diferentes pessoas, comidas e jóias me agradam! O fato de
existirem barreiras a se transgredir me agrada e, penso eu, agrada a todos.
Acho que podemos nos amar ainda mais por cima dessas barreiras. São essas as
pequenas coisas que quero veicular.
Seria lindo dizer que a última atividade deste pequeno projeto foi a realização de esculturas de arames.
As crianças teriam tido a oportunidade de explorar as linhas no espaço em sua possibilidade mais "tradicional", ou seja, criando uma escultura. Com certeza elas teriam adorado.
Ia solicitar a compra de arames simples e encapados quando descobri que havia muitos fios encapados velhos em outros setores da escola. E então, tentamos nos comunicar com tal setor para usar aqueles velhinhos mesmo. Mas, devido as dificuldades de comunicação, eles nunca chegaram. E o semestre acabou.
;)
E quem não gosta de carimbos?
Sempre olhava para uma caixa cheia de carimbos e me questionava: "Carimbos são tão legais mas, o que fazer com eles?"
Foi então que um dia, procurando imagens em revistas, achei essa propaganda da Tim. Um homem feito de carimbos de correios.
Decidi propor às crianças que fizessem desenhos com carimbos. Não preciso dizer que elas adoraram mexer com os eles. Alguns se perdiam na proposta, encantados com o simples ato de carimbar. Outros, conseguiram se manter fiéis às suas ideias e esboçaram alguns desenhos.
Mas meus alunos são pequenos. Imagino o que poderia surgir ao fazer isso com crianças maiores.
Enfim, segue alguns desenhos carimbados.
Uma forma de usar carimbo sem usar aquela tinta difícil de sair da mão, é passar tinta guache com um pincel chato sobre uma esponja qualquer.
Se os alunos forem maiores, eles podem inclusive fabricar os próprios carimbos.
Recentemente, vi um video do artista e ilustrador Fernando Vilela em que o aparecia, rapidamente, criando uma ilustração com carimbos. Segue o link.
Acabei de voltar do Masp e tive uma boa surpresa.
No último post falei sobre jogos de autorretrato e então citei a exposição Olhar e Ser Visto ocorrida no Masp alguns anos atrás.
Pois, na lojinha do Masp, encontrei o catálogo da exposição por R$30,00. Uma promoção.
Para os interessados, acho que vale a pena adquiri-lo.
Jogos são atividades muito interessantes para se trabalhar arte em sala de aula. As crianças se aproximam das obras, recebem informações, fazem leituras de imagem, aguçam a percepção, dentre muitas outras coisas. E o melhor, é que fazem tudo isso sem perceber.
Além de ser um ótimo recurso, a ideia de jogo é tão vasta que, de qualquer tema ou obra escolhido para ser trabalhado, é possível criar um joguinho.
Quando trabalhei o famoso e recorrente tema Retratos e Autorretratos, criei dois jogos, dos quais falarei a seguir.
O primeiro deles é sobre as idades da vida.
Xeroquei alguns, dos mais de 100 autorretratos feitos por Rembrandt durante sua vida, e fiz os cartões abaixo.
As crianças tinham que colocar os cartões em ordem cronológica, pensando nas características das pessoas em cada idade. Ao final, elas viam a sequência correta e quantos anos ele tinha em cada autorretrato destes.
Foi muito interessante ver os aspectos que os chamavam a atenção e os argumentos para distinguir os autorretratos mais jovens dos mais velhos. Toda essa conversa, foi passível de minha intervenção, para instigá-los e orientá-los. Muito bacana.
Neste outro jogo, confeccionei cartões da mesma forma que o anterior, mas aqui, eu selecionei os autorretratos de acordo com categorias recorrentes a esta modalidade artística.
As categorias, no entanto, não foram feitas ao acaso. Me baseei na exposição Olhar e Ser Visto (retratos), ocorrida no Masp, que tratava do tema de forma bem acessível. As categorias eram: O retrato da pompa; O recurso à cena; Retratos Modernos e Desconstrução.
Apesar das imagens terem sido escolhidas mediante tais categorias, no jogo, as crianças tinham como objetivo principal organizar as imagens por critérios criados por elas mesmas, diante de cerca de 16 imagens.
As aproximações que as crianças fizeram entre as imagens foram inimagináveis, associando cores, formas, tamanhos, vestimentas, expressões entre outros. E, de novo, cada conversa, cada opinião, cada percepção é passível de trocas e intervenção do professor.
Às vezes, ao final da aula, eu dizia quais eram as categorias que eu
tinha utilizado para selecionar as imagens. Mas, outras vezes, não
achava necessário.
O livro que eu indico é este, o mesmo que eu usei para selecionar as imagens. Como a capa já diz, há 500 autorretratos aí dentro.
Clube do Professor é um programa da Pinacoteca do Estado que, de tempos em tempos, realiza encontros de professores para discutir e trocar ideias, baseado nas exposições da Pinacoteca.
O último encontro foi inspirado na exposição de Alberto Giacometti, Coleção da Fondation Alberto et Annete Giacometti, Paris. Eu, particularmente, sempre gostei das obras de Giacometti. Ver-las ao vivo foi maravilhoso.
No encontro, houve primeiramente uma discussão sobre o que é experiência e depois sobre leitura de imagem. Na sequência fomos visitar a exposição. Eu já havia a visitado antes mas é sempre bom ver de novo. E, por fim, foi proposto uma breve atividade.
Segue aqui os autores, e seus dizeres, que inspiraram a discussão.
O que é experiência?
Segundo Jorge Larrosa: "É preciso uma intenção forte do educador para que o aluno seja tocado por uma experiência." Ainda segundo ele, a qualidade da experiência dependeria de uma passividade do aluno ao receber o que o outro (professor) tem a oferecer.
Para John Dewey, se a pessoa não é tocada pela afetividade/emoção, não há vivência da experiência.
O que é leitura de imagem?
Segundo Analice Dutra Pillar , "interpretar é confiar em si mesmo, é revelar intuição, inteligência, imaginação e combiná-las com conceitos e observações realizadas. Enfim, é apropriar-se de uma imagem nem sentido próprio e especial."
Para Maria Helena W. Rossi, "não há leitura de imagem que não seja influenciada pela experiência de vida do leitor. Ao mesmo tempo, a leitura estética vai ampliar a leitura do mundo."
Como experiência poética, foi proposta a seguinte atividade. Nos ofereceram diversos cartões (cerca de 100) alguns com imagens das obras de Giacometti, outros com palavras. Tínhamos então que agrupar estes cartões seguindo qualquer critério, estabelecido pelo grupo.
(A foto está horrível mas serve para ilustrar os cartões!)
Esta é uma atividade que os educadores da Pinacoteca propõem aos grupos que visitam a exposição.
Achei interessante ver as inúmeras formas de organização dos cartões e também a quantidade de vocabulário contidas neles.
Acredito que, ampiando o repertório de palavras acabamos ampliando também nossa percepção e leitura de imagens, obras e de mundo, não é mesmo?!